sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Memórias de Natal

É dezembro. Constrói-se a árvore de natal e quando se acende as luzes, tchanam, parece magia e até a casa ganha outro encanto. Enquanto olho para as luzinhas cintilantes sou invadida por um rol de memórias. Era Natal, algures num ano que não me recordo mas em que eu devia ter cerca de seis ou sete anos. Estava em minha casa, ansiosa pela chegada dos meus tios (irmãos da minha mãe), dos meus primos e dos meus avós maternos. Perto da hora do jantar abri a porta e a minha tia entrou com um saco preto, enorme, cheio de presentes! Era o tempo “das vacas gordas” como o meu pai gosta de dizer. Nessa altura, todos davam prenda a todos. Até eu oferecia desenhos ou cartões. Se a memória não me falha, numa carta que dei nesse  Natal ao meu tio, escrevi “adeus” no fim, lembro-me que me disseram que a palavra adeus era um pouco forte de mais, acho que mais tarde percebi o porquê. Mas deixando-me de divagações, quando chegou a hora da troca de prendas, recebi uns patins de quatro rodas, vermelhos e amarelos que davam para ajustar o tamanho, fiquei em êxtase. Calcei-os logo e as minhas primas, um pouco mais velhas do que eu, andavam-me a segurar para eu não cair. Comeu-se e conviveu-se e éramos felizes. Pouco tempo depois, devia ter eu uns dez anos, passámos o Natal na minha tia e recebi um presente que me lembro perfeitamente de desembrulhar. Era uma caixa grande, só pelo embrulho fiquei logo entusiasmada. Quando a abri o entusiasmo perdeu-se. A caixa estava cheia de palha e outras coisas para fazerem peso. Estive mesmo para desistir, não fossem os incentivos da minha família “procura, está aí qualquer coisa de certeza”, e estava mesmo. Lá no fundo avistei aquele que seria o meu primeiro telemóvel: 93, antena, dava para enviar mensagens e fazer chamadas, era cinzento e da siemens. Fiquei toda contente. Mas pouco depois as coisas mudaram por desentendimentos que nunca entendi muito bem mas que sei que foram idiotas, por coisas que os meus avós não tiveram culpa, nem os meus tios, nem os meus pais. A magia do Natal perdeu-se ligeiramente. Continuava a passar com os meus avós mas só com um casal de tios. Dois ou três anos depois, as coisas ainda pioraram. Era final de Outubro e a minha avó faleceu. Esse Natal foi passado em casa de uma tia paterna, que tenho como uma segunda mãe, com primos e tios e com os meus dois avôs (um já viúvo há vários anos e outro ficara-o recentemente). Quando chegou a hora dos presentes lembro-me que vi a minha mãe e avô deixarem cair algumas lágrimas e também não me consegui conter. Era o primeiro Natal sem a minha avó que partira há dois meses apenas. Acho que foi nessa altura que percebi que a palavra adeus tinha uma dimensão diferente da palavra xau ou até já.

Agora os Natais são passados com os meus pais, irmão e cunhada e sogros dos meu irmão. Continuo a gostar do Natal porque gosto imenso de estar em família mas sinto muito a falta dos meus avós e daquela altura em que éramos todos tão felizes. 


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