É dezembro. Constrói-se a árvore de natal e quando se acende
as luzes, tchanam, parece magia e até a casa ganha outro encanto. Enquanto olho
para as luzinhas cintilantes sou invadida por um rol de memórias. Era Natal,
algures num ano que não me recordo mas em que eu devia ter cerca de seis ou
sete anos. Estava em minha casa, ansiosa pela chegada dos meus tios (irmãos da
minha mãe), dos meus primos e dos meus avós maternos. Perto da hora do jantar
abri a porta e a minha tia entrou com um saco preto, enorme, cheio de
presentes! Era o tempo “das vacas gordas” como o meu pai gosta de dizer. Nessa
altura, todos davam prenda a todos. Até eu oferecia desenhos ou cartões. Se a
memória não me falha, numa carta que dei nesse Natal ao meu tio, escrevi “adeus” no fim,
lembro-me que me disseram que a palavra adeus era um pouco forte de mais, acho
que mais tarde percebi o porquê. Mas deixando-me de divagações, quando chegou a
hora da troca de prendas, recebi uns patins de quatro rodas, vermelhos e
amarelos que davam para ajustar o tamanho, fiquei em êxtase. Calcei-os logo e
as minhas primas, um pouco mais velhas do que eu, andavam-me a segurar para eu
não cair. Comeu-se e conviveu-se e éramos felizes. Pouco tempo depois, devia
ter eu uns dez anos, passámos o Natal na minha tia e recebi um presente que me
lembro perfeitamente de desembrulhar. Era uma caixa grande, só pelo embrulho
fiquei logo entusiasmada. Quando a abri o entusiasmo perdeu-se. A caixa estava
cheia de palha e outras coisas para fazerem peso. Estive mesmo para desistir,
não fossem os incentivos da minha família “procura, está aí qualquer coisa de
certeza”, e estava mesmo. Lá no fundo avistei aquele que seria o meu primeiro
telemóvel: 93, antena, dava para enviar mensagens e fazer chamadas, era
cinzento e da siemens. Fiquei toda contente. Mas pouco depois as coisas mudaram
por desentendimentos que nunca entendi muito bem mas que sei que foram idiotas,
por coisas que os meus avós não tiveram culpa, nem os meus tios, nem os meus
pais. A magia do Natal perdeu-se ligeiramente. Continuava a passar com os
meus avós mas só com um casal de tios. Dois ou três anos depois, as coisas
ainda pioraram. Era final de Outubro e a minha avó faleceu. Esse Natal foi
passado em casa de uma tia paterna, que tenho como uma segunda mãe, com primos
e tios e com os meus dois avôs (um já viúvo há vários anos e outro ficara-o
recentemente). Quando chegou a hora dos presentes lembro-me que vi a minha mãe
e avô deixarem cair algumas lágrimas e também não me consegui conter. Era o
primeiro Natal sem a minha avó que partira há dois meses apenas. Acho que foi
nessa altura que percebi que a palavra adeus tinha uma dimensão diferente da
palavra xau ou até já.
Agora os Natais são passados com os meus pais, irmão e
cunhada e sogros dos meu irmão. Continuo a gostar do Natal porque gosto imenso
de estar em família mas sinto muito a falta dos meus avós e daquela altura em
que éramos todos tão felizes.

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